O Messias sofredor - parte 2
O Sofredor Perseguido no livro de Jeremias.
Ah, entranhas minhas, entranhas minhas! Eu me torço em dores! Paredes do meu coração! O meu coração se aflige em mim... Ah se eu pudesse consolar-me na minha tristeza! O meu coração desfalece dentro de mim... Ai de mim, por causa do meu quebrantamento! A minha chaga me causa grande dor; mas eu havia dito: Certamente isto é minha enfermidade, e eu devo suporta-la... Sabe que por amor de ti tenho sofrido afronta... Por que é perpétua a minha dor, e incurável a minha ferida, que se recusa a ser curada? Por que saí da madre, para ver trabalho e tristeza, e para que se consumam na vergonha os meus dias? (Jr. 4:19; 8:18; 10:19; 15:15b, 18a; 20:18).
O profeta sofredor toma as palavras do Messias Sofredor em seus lábios, como fez Isaías. Mas com resignação o Messias sofre e suporta as dores cruciantes do madeiro, suportando o vexame e a afronta apenas por obediência e amor ao Pai, expressadas pelo profeta nos termos: “Por amor de ti tenho sofrido afronta...” (Jr. 15:15a).
Os extensos sofrimentos fazem-no torcer em dores, expressão bem adequada aos fatos da cruz. Seu coração aflito parece desejar romper, desfalecendo. Há dores provenientes de sua chaga, provavelmente referência às marcas dos cravos. Aqui Jeremias lamenta a sorte do Messias crucificado, terrores demais para o profeta suportar por si mesmo.
O Messias prometido veria trabalho e tristeza por seus dias, até consumiram-se entregues à vergonha na escandalosa cruz, instrumento de pena capital para os piores assassínios e a escória da sociedade.
Mas eu era como um manso cordeiro, que se leva à matança; não sabia que era contra mim que maquinavam, dizendo: Destruamos a árvore com o seu fruto, e cortemo-lo da terra dos viventes, para que não haja mais memória do seu nome. (Jr. 11:19).
Aqui Jeremias, após Isaías, pronuncia ser como cordeiro manso diante dos iracundos habitantes de Anatote, sua cidade natal, que o perseguiam desejando mata-lo. Seu desejo era desarraigá-lo, cortando-o da terra dos viventes, a ponto de não haver mais memória do profeta e de seu nome. Porém o próprio Isaías identifica o Messias como um cordeiro que é levado ao matadouro, e como a ovelha que é muda perante os seus tosquiadores (Is. 53:7).
No texto de Jeremias o Messias é igualmente apresentado como tal, portando-se mansamente, embora estivesse sendo levado à matança. Jeremias, profeticamente, como tipo do Messias Sofredor, é levado mudo, sem obstar sua justiça, pelos próprios vizinhos e amigos, que à traição desejavam entregar-lhe à morte, tão somente por vaticinar a Palavra de Deus.
O Messias Jesus é igualmente perseguido, caluniado e levado à morte, e morte de cruz. Qual manso cordeiro não abriu a sua boca perante seus tosquiadores, os que cruelmente o supliciaram da maneira mais cruel já existente, a morte agonizante e vexatória no alto de uma vergonhosa cruz.
Portanto assim diz o Senhor acerca dos homens de Anatote, que procuram a tua vida, dizendo: Não profetizes no nome do Senhor, para que não morras às nossas mãos; por isso assim diz o Senhor dos exércitos: Eis que eu os punirei; os mancebos morrerão à espada, os seus filhos e as suas filhas morrerão de fome. (Jr. 11:21-22).
Jeremias era profeta, homem de Deus, enviado por Ele para proclamar a Sua Palavra ao seu próprio povo, os habitantes de sua cidade, Anatote e à Jerusalém. Eles, porém, escusaram-se e não desejavam ouvir suas palavras, procurando tirar-lhe a vida (Jr. 11:21-22).
Os líderes religiosos de seu tempo eram seus principais perseguidores. Igualmente aconteceu com Cristo Jesus. Era o Profeta esperado, homem da parte de Deus, enviado para a proclamação de Sua Palavra ao seu povo, Israel. Mas, como disse o apóstolo do amor, “veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. (Jo. 1:11).
Outro paralelo com o Messias, ainda mais intenso e dramático, deu-se na vida de Jeremias, ao efetivar seu ministério profético, quando por ordem de Deus passa a vociferar no átrio do templo.
Ora Pasur, filho de Imer, o sacerdote, que era superintendente da casa do Senhor, ouviu Jeremias profetizar estas coisas. Então feriu Pasur ao profeta Jeremias, e o meteu no cepo que está na porta superior de Benjamim, na casa do Senhor. (Jr. 20:1-2).
Pasur, filho de sacerdote, presidente da Casa do Senhor, ouviu a Jeremias, que a mando e envio do Senhor passou a profetizar no átrio. A profecia de Jeremias era contrária a Jerusalém e seu povo. Pasur, chefe da segurança do templo e um dos principais religiosos fere a Jeremias e o mete no cepo. O cepo era uma tora de madeira cortada transversalmente. Em algumas versões a palavra usada é “tronco”.
O fato de Jeremias ter sido detido, espancado e preso a um madeiro por um guarda oficial do templo, configura-se uma predição a respeito da detenção de Cristo, pelos representantes religiosos, diante dos quais foi agredido, exatamente por um guarda, como o profeta. Após receber as agressões, a prisão do profeta em um cepo, um madeiro, é um claro evento profético, tendo cumprimento em Cristo, que após ser agredido e escarnecido, carregou o cepo, o madeiro, sendo preso nele, por crucificação, próximo à porta da cidade.
Jeremias profetiza a derrota e deportação do povo da cidade, como fez Jesus (Lc. 23:28-31). Ainda as palavras de Jeremias tem forte conteúdo profético: Sirvo de escárnio todo o dia; cada um deles zomba de mim, estou cansado de sofrer. (Jr. 20:7-9).
O profeta ainda empresta seus lábios aos dizeres do Messias vindouro, ao pronunciar: Pois ouço a difamação de muitos, terror por todos os lados! Denunciai-o! Denunciemo-lo! dizem todos os meus íntimos amigos, aguardando o meu manquejar; bem pode ser que se deixe enganar; então prevaleceremos contra ele e nos vingaremos dele. (Jr. 20:10).
O íntimo amigo do profeta aguarda a oportunidade de denunciá-lo, como o fez o traidor Judas a Cristo. O desejo de vingar-se e prevalecer sobre o profeta vinha ardentemente de seus inimigos, como também dos de Jesus. Após tantas imerecidas perseguições, aturdido e perplexo o profeta exclama: O meu coração está quebrantado dentro de mim; todos os meus ossos estremecem. (Jr. 23:9), como eco das palavras do Messias. Outro trecho aproxima ainda mais os personagens:
Tendo Jeremias acabado de dizer tudo quanto o Senhor lhe havia ordenado que dissesse a todo o povo, pegaram nele os sacerdotes, e os profetas, e todo o povo, dizendo: Certamente morrerás... E ajuntou-se todo o povo contra Jeremias, na casa do Senhor. Então falaram os sacerdotes e os profetas aos príncipes e a todo povo, dizendo: Este homem é réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com os vossos próprios ouvidos. E falou Jeremias a todos os príncipes e a todo o povo, dizendo: ...Quanto a mim, eis que estou nas vossas mãos; fazei de mim conforme o que for bom e reto aos vossos olhos. Sabei, porém, com certeza que, se me matardes a mim, trareis sangue inocente sobre vós, e sobre esta cidade, e sobre os seus habitantes; porque, na verdade, o Senhor me enviou a vós, para dizer aos vossos ouvidos todas estas palavras. (Jr. 27:8,9,11,12,14).
Jeremias é o profeta que mais se assemelhou ao Messias, a ponto de alguns do povo, no tempo de Cristo, ter achado ser Jesus o próprio Jeremias ressurreto. Na verdade muito do que se deu com o profeta tinha caráter profético e apontava para eventos futuros, que se daria na vida do Messias predito. Assim é este texto de Jeremias 27. É um impressionante paralelo com o relato da detenção e julgamento de Jesus.
Tão somente por pregar a Palavra do Senhor foi odiado e detido Jeremias pelos “sacerdotes, e os profetas, e todo o povo” (v.8). Os evangelhos informam que todos os principais sacerdotes e os anciãos do povo entraram em conselho contra Jesus, para o matarem. (Mt. 27:1).
Os religiosos do tempo de Jeremias insuflaram também as massas com calúnias, dizendo ser o profeta réu de morte, acrescentando a frase: “como ouvistes com os vossos próprios ouvidos” (v.9).
Não foi assim com Cristo Jesus? Sentenciaram-no também, condenando-o: “Então o sumo sacerdote, rasgando as suas vestes, disse: Para que precisamos ainda de testemunhas? Acabais de ouvir a blasfêmia; que vos parece? E todos o condenaram como réu de morte”. (Mc. 14:63-64).
O profeta então advertiu: “Se me matardes a mim, trareis sangue inocente sobre vós, e sobre esta cidade, e sobre os seus habitantes” (v. 12). Durante o julgamento de Jesus todo o povo respondeu: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos. (Mt. 27:25). Jeremias traça fielmente o roteiro da prisão, condenação e morte de Cristo.
Continua...