O Sofredor Perseguido - parte 6
Salmo 69
Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre. (Salmo 69:21).
Parcial o cumprimento deste versículo deu-se em Mateus 27:34. “Deram-lhe a beber vinho misturado com fel; mas ele, provando-o, não quis beber”. O texto de Marcos 15:32 informa: “E ofereciam-lhe vinho misturado com mirra; mas ele não o tomou”. Aqui “fel” é trocado por “mirra”.
O primeiro evento, beber vinho misturado com fel ou mirra foi recusado por Cristo, já que ali estava uma solução entorpecedora:
A mirra dava ao vinho azedo um sabor melhor, e, tal como o fel, produzia um efeito narcótico e estupefaciente... Lemos na história que este tipo de bebida era usado para diminuir os sofrimentos dos soldados feridos. E era costumeiro dá-la às vítimas da crucificação, para que suas dores fossem suavizadas.
Era uma prática de misericórdia judaica dar àqueles conduzidos a execução uma porção de um forte vinho misturado com mirra para entorpecer a consciência.
A Cristo ofereceram aquela bebida entorpecente logo que chegaram ao Gólgota (Mt. 27:33). Talvez tenha sido iniciativa caridosa das mulheres, mas o efeito sedativo e anestésico da bebida impediria que Cristo sofresse inteiramente os ardores da cruz. Cristo queria, sim, beber inteiramente do cálice que o Pai não afastara de si.
O segundo evento se deu, segundo Mateus, cerca da hora nona, quando “correu um deles, tomou uma esponja, ensopou-a em vinagre e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber”. (Mt. 27:48; Mc. 15:36; Lc. 23:36). Há um pormenor indicado pelo último evangelista:
“Estava ali um vaso cheio de vinagre. Puseram, pois, numa cana de hissopo uma esponja ensopada de vinagre, e lha chegaram à boca. Então Jesus, depois de ter tomado o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito”. (João 19:29-30).
Esta ação foi resultado da expressão: “Tenho sede” (Jo. 19:28) que Cristo disse ao ver as coisas já consumadas. A profecia decretava: “A minha força secou-se como um caco e a língua se me pega ao paladar; tu me puseste no pó da morte”. (Sl. 22:15). Jesus, tendo exaurido suas forças e com o palato completamente seco pela desidratação sofrida também pela extensa perda de sangue, vê que a morte se aproxima e pretende cumprir mais esta profecia a seu respeito.
O “vaso cheio de vinagre” seria um recipiente contendo vinho azedo misturado com água, destinado aos próprios soldados romanos. É caso de um deles ter tomado então a iniciativa de embeber uma esponja com aquele nauseante líquido e entregar aos lábios rachados e ressequidos de Jesus, não como um gesto de misericórdia, mas, como predisse o salmista, mais um insolente ato zombeteiro.
Significativo é que esta segunda bebida foi dada “numa cana de hissopo” através de “uma esponja ensopada de vinagre” (Jo. 19:29). Isto se deu ao início da festa da Páscoa. Na instituição desta festa, no passado, era determinado o que se segue: “Então tomareis um molho de hissopo, embebê-lo-eis no sangue que estiver na bacia e marcareis com ele a verga da porta e os dois umbrais” (Êx. 12:22). Isso era para marcar a porta da casa de cada família judia, afim de serem protegidos e poupados do anjo exterminador que Deus faria passar pela terra do Egito.
O hissopo também era usado para purificação ritual, prescrita na Lei: O sacerdote ordenará que, para aquele que se há de purificar, se tomem duas aves vivas e limpas, pau de cedro, carmesim e hissopo. Tomará a ave viva, e com ela o pau de cedro, o carmesim e o hissopo, os quais molhará, juntamente com a ave viva, no sangue da ave que foi imolada sobre as águas vivas. (Lv. 14:4,6).
O hissopo, portanto, teria propriedades rituais purificadoras. Além disso, era com ele que se aspergia o sangue do cordeiro sobre as traves de madeira das casas onde estava o povo de Israel, a fim de marca-los e poupa-los do anjo exterminador no Egito. A verga da porta e os dois umbrais, feitos de madeira, eram marcados com o sangue do cordeiro imolado, que embebia o hissopo.
Está aí uma das mais belas figuras da crucificação! Madeira, sangue, purificação, libertação da morte. Tudo aponta simbolicamente para a cruz de Cristo, onde o pecado e a morte foram vencidos, trazendo para nós purificação e vida eterna!
Sobre isto profetizou Isaías: “Ainda que os vossos pecados são como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã”. (Is. 1:18). É o que o salmista exclama: “Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve”. (Sl. 51:7).
Particularidades da planta hissopo: Ela traz em sua extremidade uma inflorescência que se volta apenas para um lado da planta, com flores azuladas ou violetas. Sua ação aquecedora é acrescida, devido à atividade da cânfora que é uma substância que a planta possui, de uma ação sedativa e anti-espasmódica. O poder terapêutico se dirige, nesta planta, principalmente ao sistema rítmico do homem, pois a região rítmica da planta (as folhas) está abundantemente desenvolvida no Hissopo. Esta planta é indicada no catarro bronquial crônico, na asma, e também na regulação da sudação. Além disso, seu óleo alivia os vivos sofrimentos dos feridos.
Aquela planta com pequenas flores azuis tem ação sedativa e aliviava as dores. Mesmo assim não importava que Cristo tivesse bebido este anestésico. Jesus já teria sorvido todo o cálice que Deus o proporcionou. Levando sobre si as dores, e experimentando “O castigo que nos traz a paz”, encontrava-se ao término de sua vida, oferecida espontaneamente.
Pode provar o vinagre na ponta do caniço de hissopo, cumprindo em si a aspersão do sangue do cordeiro pascal, sacrifício substitutivo, purificador, remidor, que poupa da morte aos que nele creem. (João 3:16).
Continua...